Dra. Sabryna Werneck
Cirurgia Geral e Coloproctologia
CRM 127.774 • RQE 62.641
Quando se fala em esteroides anabólicos androgênicos (EAA), a maioria das pessoas associa essas substâncias ao aumento de massa muscular e à melhora da performance física. No entanto, o uso de anabolizantes também pode provocar alterações importantes no intestino, no fígado e na Microbiota Intestinal.
Nos últimos anos, estudos científicos vêm demonstrando que os anabolizantes podem impactar diretamente a saúde gastrointestinal por diferentes mecanismos, incluindo inflamação intestinal, alterações da flora bacteriana, mudanças na motilidade do intestino e aumento da permeabilidade intestinal.
Os esteroides anabólicos androgênicos atuam em diversos tecidos do organismo, incluindo o trato gastrointestinal. Pesquisas experimentais demonstraram que substâncias como a nandrolona podem alterar o funcionamento intestinal, acelerando o esvaziamento gástrico e reduzindo a velocidade do trânsito intestinal.
Além disso, estudos observaram alterações estruturais na mucosa intestinal, incluindo:
- Redução de vilosidades intestinais;
- Hipertrofia muscular intestinal;
- Aumento de células inflamatórias locais.
Esses achados sugerem um estado de inflamação crônica de baixo grau associado ao uso dessas substâncias.
Na prática, essas alterações podem se manifestar por meio de sintomas como:
- Distensão abdominal;
- Excesso de gases;
- Constipação;
- Diarreia;
- Dor abdominal;
- Sensação de má digestão;
- Piora de doenças intestinais pré-existentes.
Outro aspecto relevante é o impacto dos anabolizantes sobre Microbiota Intestinal, conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no intestino e desempenham funções essenciais relacionadas à imunidade, ao metabolismo e à saúde digestiva.
Atualmente, sabe-se que existe uma relação bidirecional entre hormônios androgênicos e microbiota intestinal. O uso de doses supra-fisiológicas de testosterona e outros anabolizantes pode alterar significativamente a composição dessas bactérias, favorecendo um quadro conhecido como disbiose intestinal.
Esse desequilíbrio pode contribuir para:
- Aumento da inflamação sistêmica;
- Alterações metabólicas;
- Piora da imunidade;
- Maior permeabilidade intestinal (“leaky gut”);
- Impacto no eixo intestino-cérebro.
A hiperpermeabilidade intestinal ocorre quando a barreira protetora do intestino se torna excessivamente permeável, permitindo a passagem de toxinas, fragmentos bacterianos e substâncias inflamatórias para a circulação sanguínea.
Esse processo pode favorecer inflamação crônica de baixo grau e está associado a diversos sintomas gastrointestinais e metabólicos.
Embora os mecanismos envolvidos ainda estejam em estudo, evidências sugerem que alterações hormonais intensas e o estresse metabólico induzido pelos anabolizantes podem contribuir para esse cenário.
Os anabolizantes orais, especialmente os chamados compostos 17-alquilados, apresentam maior risco de toxicidade hepática.
Entre as complicações descritas na literatura médica estão:
- Colestase hepática;
- Hepatite medicamentosa;
- Peliose hepática;
- Adenomas hepáticos;
- Aumento do risco de tumores hepáticos.
Em alguns casos, a recuperação hepática pode levar meses, mesmo após a suspensão do uso dessas substâncias.
Muitos pacientes desenvolvem sintomas digestivos importantes associados ao comprometimento do fígado, como:
- Náuseas;
- Refluxo;
- Dor abdominal;
- Icterícia;
- Fezes claras;
- Coceira intensa;
- Sensação de má digestão.
Existe uma percepção equivocada de que o uso de anabolizantes para fins estéticos ou de performance seria seguro. Entretanto, os efeitos adversos descritos na literatura científica podem atingir múltiplos órgãos e sistemas.
Além do intestino e do fígado, podem ocorrer impactos no:
- Sistema cardiovascular;
- Sistema endócrino;
- Saúde mental;
- Metabolismo.
Outro fator de preocupação é que muitos produtos comercializados como “naturais”, “pró-hormonais” ou SARMs podem conter substâncias não declaradas em sua composição, aumentando ainda mais os riscos potenciais.
Dúvidas comuns sobre anabolizantes e intestino
Entenda, de forma clara e objetiva, algumas das dúvidas mais frequentes sobre anabolizantes e intestino.
Anabolizantes podem causar problemas intestinais?
Sim. Estudos científicos sugerem que o uso de esteroides anabólicos androgênicos pode estar associado a alterações na motilidade intestinal, inflamação local, disbiose intestinal e aumento da permeabilidade intestinal.
Quais sintomas digestivos podem ocorrer com o uso de anabolizantes?
Entre os sintomas descritos estão distensão abdominal, gases, constipação, diarreia, dor abdominal e sensação de má digestão.
O que é disbiose intestinal?
Disbiose intestinal é o desequilíbrio da microbiota intestinal, podendo estar associada a alterações imunológicas, metabólicas e inflamatórias.
Anabolizantes podem afetar o fígado?
Sim. Especialmente os anabolizantes orais 17-alquilados apresentam maior risco de toxicidade hepática, incluindo colestase, hepatite medicamentosa e outras complicações descritas na literatura.
O intestino permeável pode estar relacionado ao uso de anabolizantes?
Evidências sugerem que alterações hormonais intensas e o estresse metabólico induzidos pelos anabolizantes podem contribuir para o aumento da permeabilidade intestinal.
O intestino também pode sofrer consequências importantes relacionadas ao uso de anabolizantes. Alterações na microbiota intestinal, inflamação local, dismotilidade intestinal, hiperpermeabilidade e lesão hepática estão entre os mecanismos já descritos na literatura científica.
De modo geral, quanto maiores as doses utilizadas e maior o tempo de exposição, maior tende a ser o risco de complicações.
A saúde intestinal exerce papel fundamental no equilíbrio do organismo e deve ser considerada dentro de uma avaliação global da saúde.
Em caso de sintomas digestivos persistentes ou dúvidas relacionadas à saúde intestinal, é importante procurar avaliação médica especializada.

Cirurgia Geral e Coloproctologia
CRM 127.774 • RQE 62.641


