A evacuação e a continência fecal são funções que passam despercebidas quando ocorrem de forma normal, mas cuja importância torna-se evidente diante de sintomas como incontinência fecal ou Constipação Crônica. Esses processos dependem de uma complexa interação entre estruturas anatômicas e mecanismos neuromusculares finamente ajustados. Compreender os principais componentes do aparelho anorretal e como sua coordenação impacta a função intestinal é fundamental tanto para profissionais de saúde quanto para pacientes que enfrentam distúrbios funcionais.
O mecanismo de continência é mantido por três estruturas musculares principais: o esfíncter anal interno, o esfíncter anal externo e o músculo puborretal.
O esfíncter anal interno é uma extensão do músculo circular interno do reto. Trata-se de musculatura lisa, ou seja, involuntária, que permanece contraída na maior parte do tempo e relaxa em resposta à distensão retal. Ele é responsável por 55 a 85% da pressão anal de repouso, sendo o principal mantenedor da continência passiva — aquela que impede o escape fecal mesmo quando não há esforço consciente por parte do paciente. A integridade dessa estrutura é crucial na prevenção da incontinência em repouso.
O esfíncter anal externo é composto por músculo estriado voluntário, envolvendo o esfíncter interno em camadas concêntricas. Ele pode ser contraído de forma voluntária e é ativado automaticamente em situações que exigem contenção, como espirros, tosse ou aumento súbito da pressão abdominal. Sua função é essencial na continência de urgência — aquela que permite ao indivíduo adiar a evacuação até chegar a um local apropriado.
O músculo puborretal, parte do músculo elevador do ânus, forma uma alça em forma de “sling” que envolve a junção entre o reto e o canal anal, criando o chamado ângulo anorretal. Em repouso, esse músculo mantém o ângulo fechado, colaborando com o mecanismo de contenção. Durante a evacuação, o puborretal relaxa, o que permite o alinhamento do reto com o canal anal e facilita a saída das fezes. “O relaxamento adequado do músculo puborretal é essencial para a evacuação voluntária e eficiente”.
Para que esses mecanismos funcionem de maneira coordenada, é indispensável uma boa integração neuromuscular. Isso envolve circuitos nervosos centrais (medula espinhal e tronco encefálico), nervos periféricos (principalmente o nervo pudendo) e receptores sensoriais localizados no reto e canal anal. A defecação normal depende da percepção do reto cheio, do reflexo de relaxamento do esfíncter interno e da resposta consciente de contrair ou relaxar os músculos voluntários.
Distúrbios nessa coordenação resultam em sintomas funcionais importantes. Na incontinência fecal, podem ocorrer lesões do esfíncter externo (traumáticas, cirúrgicas ou obstétricas), neuropatias que afetam a sensibilidade ou a resposta motora, ou falhas no reflexo inibitório retoanal. Já a constipação por obstrução da saída — um subtipo funcional — pode ser causada por contração paradoxal do músculo puborretal ou falha de relaxamento dos esfíncteres, fenômeno conhecido como disfunção do assoalho pélvico ou anismo.
A avaliação funcional dessas estruturas pode ser feita por meio de exames específicos, como a manometria anorretal, a eletroneuromiografia do nervo pudendo e a defecografia. Esses testes ajudam a diferenciar as causas dos sintomas e a orientar o tratamento, que pode incluir fisioterapia pélvica (biofeedback), medicamentos, toxina botulínica ou, em casos selecionados, cirurgia.
Compreender a anatomia funcional anorretal é o primeiro passo para desmistificar os sintomas e buscar soluções efetivas. A interação entre estrutura e função é o alicerce da saúde intestinal — e um conhecimento essencial tanto para o paciente quanto para o profissional envolvido no cuidado coloproctológico.

Cirurgia Geral e Coloproctologia
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